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terça-feira, 15 de setembro de 2026

A Morte da Militância: Como a ganância partidária e a internet mataram a festa da democracia


Antigamente, eleição se fazia com sola de sapato gasta, suor no rosto e lama na canela. Era o morro subido a pé, o olho no olho, a casa aberta para tomar um café com o eleitor. Tinha bandeirada no sinal, galhardete na rua, placa no muro do vizinho e panfleto passando de mão em mão.

A política podia ter mil defeitos, mas tinha gente. Tinha vida. Tinha militância de verdade.

Hoje, muita coisa mudou.

A eleição entrou definitivamente na era dos algoritmos. O encontro presencial foi substituído, em grande parte, pelo vídeo patrocinado. A conversa na calçada disputa espaço com o anúncio direcionado. O militante que antes percorria bairros inteiros agora muitas vezes é substituído por uma estratégia digital planejada para alcançar milhares de pessoas com alguns cliques.

E aqui está uma pergunta que precisa ser feita:

Será que, ao modernizar a comunicação política, não estamos também perdendo aquilo que havia de mais humano na política?

A política virou um show de pixels?

As redes sociais são ferramentas poderosas. Não há nada de errado em utilizá-las. O problema começa quando elas deixam de ser uma ferramenta complementar e passam a ocupar praticamente todo o espaço da campanha.

Hoje, partidos e candidatos podem gastar valores expressivos com publicidade digital, impulsionamento de vídeos e estratégias de comunicação nas plataformas.

Enquanto isso, em muitos lugares, a militância fica sem material, sem estrutura e, principalmente, sem participação efetiva.

O dinheiro que poderia ajudar a movimentar uma cadeia econômica local — a pequena gráfica, o produtor de bandeiras, o profissional de comunicação, o trabalhador que participa da campanha — muitas vezes acaba concentrado em grandes plataformas digitais e empresas especializadas em marketing político.

Não se trata de ser contra a tecnologia.

Trata-se de perguntar se a tecnologia está servindo à política ou se a política está ficando refém da tecnologia.

Da sola de sapato ao algoritmo

Existe uma diferença fundamental entre alguém receber uma mensagem patrocinada no celular e conversar pessoalmente com um militante.

O anúncio aparece.

O militante escuta.

O algoritmo seleciona um público.

O militante conhece o bairro.

A publicidade entrega uma mensagem.

A militância recebe uma crítica, uma sugestão, uma reclamação e, muitas vezes, até uma esperança.

É por isso que a militância continua sendo tão importante.

Política não é apenas comunicação. Política é relacionamento humano.

Uma eleição pode alcançar milhões de pessoas pela internet e, ainda assim, estar distante das ruas.

Podemos ter milhares de visualizações e poucas conversas verdadeiras.

Podemos ter milhões de impressões e uma militância desmotivada.

Podemos ter campanhas profissionalíssimas e, ao mesmo tempo, pessoas comuns perguntando:

“Mas onde estão os militantes?”

A pergunta que incomoda

Essa discussão deveria ultrapassar os limites da esquerda e da direita.

Deveria incomodar todos os partidos.

Todos os candidatos.

Todos aqueles que acreditam que a democracia precisa da participação popular.

A pergunta é simples:

Se existem recursos para impulsionar milhares de vídeos nas redes sociais, por que tantas vezes falta estrutura para quem está nas ruas defendendo uma candidatura?

Por que o militante precisa trabalhar voluntariamente, muitas vezes arcando com seus próprios custos, enquanto grandes empresas de tecnologia recebem valores expressivos para distribuir propaganda?

Por que a pessoa que percorre o bairro inteiro, conversa com moradores e enfrenta o sol precisa ouvir que “não existe recurso”, enquanto a campanha continua aparecendo incessantemente na tela do celular?

Não estou dizendo que publicidade digital não seja necessária.

Estou dizendo que militância também é.

Esquerda e direita precisam olhar para isso

O problema não pertence exclusivamente a um partido ou a uma ideologia.

É possível encontrar esse fenômeno em diferentes campos políticos.

A esquerda, que historicamente construiu sua força a partir dos sindicatos, movimentos sociais, associações comunitárias, universidades, bairros populares e organizações de base, precisa tomar cuidado para não trocar a militância real pela militância digital.

A direita também precisa responder à mesma questão.

Não adianta falar permanentemente em nome do povo se a relação com esse povo acontece apenas através de telas, anúncios patrocinados e estratégias de marketing.

O povo não é uma métrica de engajamento.

Ele tem rosto, nome, história e problemas concretos.

O que estamos perdendo?

Talvez a maior perda não seja o panfleto.

Não seja a bandeira.

Não seja o carro de som.

Não seja sequer o velho cabo eleitoral.

O que estamos perdendo pode ser algo muito maior:

a capacidade de convencer alguém olhando nos olhos.

A política de rua permitia que o eleitor questionasse o candidato.

Permitia que o militante ouvisse uma reclamação.

Permitia que uma liderança surgisse dentro da própria comunidade.

Permitia que pessoas comuns descobrissem que também poderiam participar da política.

O algoritmo pode entregar uma mensagem para cem mil pessoas.

Mas ele não cria, sozinho, uma comunidade.

E democracia não vive apenas de alcance.

Democracia vive de participação.

A militância precisa voltar

Talvez a solução não seja escolher entre a rua e a internet.

Talvez seja recuperar o equilíbrio.

Usar a tecnologia para ampliar a voz da militância — e não para substituí-la.

Usar as redes sociais para chamar as pessoas para as ruas.

Usar vídeos para apresentar propostas, mas também abrir espaço para ouvir a população.

Usar ferramentas digitais para organizar encontros, debates, reuniões comunitárias e movimentos sociais.

Porque a internet pode aproximar.

Mas também pode afastar.

Pode democratizar a informação.

Mas também pode transformar a política em um produto cuidadosamente embalado para cada público.

Por isso, fica aqui uma reflexão para todos os partidos, candidatos, militantes e eleitores:

Que tipo de democracia estamos construindo?

Uma democracia em que o cidadão participa?

Ou uma democracia em que ele apenas assiste?

Porque uma coisa é certa:

a política pode mudar de ferramenta, mas não pode perder o povo.

E se a militância morrer completamente, talvez descubramos tarde demais que não perdemos apenas uma forma antiga de fazer campanha.

Perdemos uma parte da própria alma da democracia.