Por Adeilson Oliveira
Houve um tempo em que, durante o Carnaval, muitos fiéis simplesmente desapareciam. Sumiam para o sítio, buscavam silêncio, oração, recolhimento. A proposta era se afastar do “barulho do mundo”.
Hoje, o cenário mudou.
O corpo até pode estar no retiro. Mas os olhos… ah, os olhos estão grudados nas manchetes, nas transmissões ao vivo, nos trending topics. A vigilância virou um ritual. É preciso assistir tudo. Analisar tudo. Catalogar tudo.
Não para celebrar — mas para condenar.
Como investigadores morais de plantão, acompanham cada desfile em busca da prova definitiva de que o mundo acabou ontem.
O Enredo da “Família em Conserva”
A palavra “conserva” é curiosa. Evoca pureza, preservação, proteção contra contaminações externas. Mas o que se vê muitas vezes é outra coisa.
Uma estética impecável, milimetricamente calculada.
A foto perfeita, a mesa posta, o sorriso ensaiado. Tudo muito organizado. Tudo muito virtuoso.
Enquanto isso, nos bastidores digitais, dedos inflamados digitam sentenças furiosas contra quem ousa viver diferente.
Não é preservação — é vitrine.
O Combustível da Indignação Permanente
Existe uma ironia quase invisível: quanto maior o escândalo, maior o alcance. Quanto mais chocante a narrativa, maior o engajamento. O Carnaval, nesse teatro, deixa de ser festa e vira matéria-prima.
Sem ele, talvez faltasse inimigo. Faltasse ameaça. Faltasse o contraste necessário para sustentar a performance da superioridade moral.
O problema nunca é apenas a festa.
É a utilidade da festa como alvo.
O Marketing do Fim dos Tempos
Toda imagem vira símbolo. Toda fantasia vira profecia. Toda cena vira “sinal inequívoco”. O choque não é exceção — é estratégia. O medo não é acidente — é ferramenta.
Constrói-se uma dramaturgia onde a indignação precisa ser renovada diariamente, porque o algoritmo recompensa quem grita mais alto.
A Diferença Incômoda
Há quem simplesmente não goste de Carnaval. E tudo bem. Dormem, viajam, ignoram, seguem a vida. Sem cruzadas, sem tribunais improvisados, sem necessidade de provar virtudes públicas.
E há quem declare repulsa absoluta… enquanto consome cada segundo daquilo que afirma desprezar.
Assistir vira obrigação.
Julgar vira missão. Condenar vira conteúdo.
Um sacrifício bastante conveniente.
O Veredito Silencioso
A chamada “família em conserva” frequentemente se revela algo diferente: uma família em exposição. Não se trata apenas de valores — mas de narrativa. Não apenas de crenças — mas de posicionamento.
Não é fé em isolamento.
É identidade em contraste.
Enquanto a metralhadora de julgamentos dispara no feed, a vida real segue indiferente, pulsando fora da tela, longe da obsessão de fiscalizar o comportamento alheio.
Talvez o verdadeiro incômodo não seja o Carnaval.
Mas a existência de quem não pede permissão para existir.