Antigamente, eleição se fazia com sola de sapato gasta, suor no rosto e lama na canela. Era o morro subido a pé, o olho no olho, a casa aberta para tomar um café com o eleitor. Tinha bandeirada no sinal, galhardete na rua, placa no muro do vizinho e panfleto passando de mão em mão.
A política podia ter mil defeitos, mas tinha gente. Tinha vida. Tinha militância de verdade.
Hoje, muita coisa mudou.
A eleição entrou definitivamente na era dos algoritmos. O encontro presencial foi substituído, em grande parte, pelo vídeo patrocinado. A conversa na calçada disputa espaço com o anúncio direcionado. O militante que antes percorria bairros inteiros agora muitas vezes é substituído por uma estratégia digital planejada para alcançar milhares de pessoas com alguns cliques.
E aqui está uma pergunta que precisa ser feita:
Será que, ao modernizar a comunicação política, não estamos também perdendo aquilo que havia de mais humano na política?
A política virou um show de pixels?
As redes sociais são ferramentas poderosas. Não há nada de errado em utilizá-las. O problema começa quando elas deixam de ser uma ferramenta complementar e passam a ocupar praticamente todo o espaço da campanha.
Hoje, partidos e candidatos podem gastar valores expressivos com publicidade digital, impulsionamento de vídeos e estratégias de comunicação nas plataformas.
Enquanto isso, em muitos lugares, a militância fica sem material, sem estrutura e, principalmente, sem participação efetiva.
O dinheiro que poderia ajudar a movimentar uma cadeia econômica local — a pequena gráfica, o produtor de bandeiras, o profissional de comunicação, o trabalhador que participa da campanha — muitas vezes acaba concentrado em grandes plataformas digitais e empresas especializadas em marketing político.
Não se trata de ser contra a tecnologia.
Trata-se de perguntar se a tecnologia está servindo à política ou se a política está ficando refém da tecnologia.
Da sola de sapato ao algoritmo
Existe uma diferença fundamental entre alguém receber uma mensagem patrocinada no celular e conversar pessoalmente com um militante.
O anúncio aparece.
O militante escuta.
O algoritmo seleciona um público.
O militante conhece o bairro.
A publicidade entrega uma mensagem.
A militância recebe uma crítica, uma sugestão, uma reclamação e, muitas vezes, até uma esperança.
É por isso que a militância continua sendo tão importante.
Política não é apenas comunicação. Política é relacionamento humano.
Uma eleição pode alcançar milhões de pessoas pela internet e, ainda assim, estar distante das ruas.
Podemos ter milhares de visualizações e poucas conversas verdadeiras.
Podemos ter milhões de impressões e uma militância desmotivada.
Podemos ter campanhas profissionalíssimas e, ao mesmo tempo, pessoas comuns perguntando:
“Mas onde estão os militantes?”
A pergunta que incomoda
Essa discussão deveria ultrapassar os limites da esquerda e da direita.
Deveria incomodar todos os partidos.
Todos os candidatos.
Todos aqueles que acreditam que a democracia precisa da participação popular.
A pergunta é simples:
Se existem recursos para impulsionar milhares de vídeos nas redes sociais, por que tantas vezes falta estrutura para quem está nas ruas defendendo uma candidatura?
Por que o militante precisa trabalhar voluntariamente, muitas vezes arcando com seus próprios custos, enquanto grandes empresas de tecnologia recebem valores expressivos para distribuir propaganda?
Por que a pessoa que percorre o bairro inteiro, conversa com moradores e enfrenta o sol precisa ouvir que “não existe recurso”, enquanto a campanha continua aparecendo incessantemente na tela do celular?
Não estou dizendo que publicidade digital não seja necessária.
Estou dizendo que militância também é.
Esquerda e direita precisam olhar para isso
O problema não pertence exclusivamente a um partido ou a uma ideologia.
É possível encontrar esse fenômeno em diferentes campos políticos.
A esquerda, que historicamente construiu sua força a partir dos sindicatos, movimentos sociais, associações comunitárias, universidades, bairros populares e organizações de base, precisa tomar cuidado para não trocar a militância real pela militância digital.
A direita também precisa responder à mesma questão.
Não adianta falar permanentemente em nome do povo se a relação com esse povo acontece apenas através de telas, anúncios patrocinados e estratégias de marketing.
O povo não é uma métrica de engajamento.
Ele tem rosto, nome, história e problemas concretos.
O que estamos perdendo?
Talvez a maior perda não seja o panfleto.
Não seja a bandeira.
Não seja o carro de som.
Não seja sequer o velho cabo eleitoral.
O que estamos perdendo pode ser algo muito maior:
a capacidade de convencer alguém olhando nos olhos.
A política de rua permitia que o eleitor questionasse o candidato.
Permitia que o militante ouvisse uma reclamação.
Permitia que uma liderança surgisse dentro da própria comunidade.
Permitia que pessoas comuns descobrissem que também poderiam participar da política.
O algoritmo pode entregar uma mensagem para cem mil pessoas.
Mas ele não cria, sozinho, uma comunidade.
E democracia não vive apenas de alcance.
Democracia vive de participação.
A militância precisa voltar
Talvez a solução não seja escolher entre a rua e a internet.
Talvez seja recuperar o equilíbrio.
Usar a tecnologia para ampliar a voz da militância — e não para substituí-la.
Usar as redes sociais para chamar as pessoas para as ruas.
Usar vídeos para apresentar propostas, mas também abrir espaço para ouvir a população.
Usar ferramentas digitais para organizar encontros, debates, reuniões comunitárias e movimentos sociais.
Porque a internet pode aproximar.
Mas também pode afastar.
Pode democratizar a informação.
Mas também pode transformar a política em um produto cuidadosamente embalado para cada público.
Por isso, fica aqui uma reflexão para todos os partidos, candidatos, militantes e eleitores:
Que tipo de democracia estamos construindo?
Uma democracia em que o cidadão participa?
Ou uma democracia em que ele apenas assiste?
Porque uma coisa é certa:
a política pode mudar de ferramenta, mas não pode perder o povo.
E se a militância morrer completamente, talvez descubramos tarde demais que não perdemos apenas uma forma antiga de fazer campanha.
Perdemos uma parte da própria alma da democracia.
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