O Brasil está assistindo nascer uma geração perigosa de políticos e influenciadores que confundiu fiscalização com humilhação pública. Uma turma que descobriu que dá engajamento apontar o dedo na cara de professor, servidor, trabalhador humilde e gente simples.
Foi vereador chamando professor de vagabundo. Foi garoto pegando microfone em assembleia para desrespeitar educador como se professor fosse inimigo da sociedade. E o pior: ainda tem plateia aplaudindo esse tipo de espetáculo.
Que tipo de formação política é essa? Que tipo de ser humano acha bonito humilhar trabalhador para viralizar na internet?
O verdadeiro negócio: O lucro por trás da lacração
Hoje virou moda fazer vídeo gritando com funcionário público. Virou moda pegar celular, ligar a câmera e agir como imperador diante de gente que está trabalhando. Sempre escolhem o alvo mais fácil. Sempre escolhem quem não tem segurança armada, quem não tem milhões na conta, quem está ali tentando sobreviver. É a geração do “valentão de condomínio”. Do “justiceiro de internet”. Do político criado por algoritmo.
Mas o buraco é muito mais embaixo. Sabe por que eles fazem isso com tanta ganância? Porque a humilhação virou negócio.
Alguns desses vereadores e políticos usam a estrutura pública do mandato, paga com o seu imposto, para gravar esses teatros e colocar no TikTok e no Kwai. Eles monetizam esses vídeos. Isso significa que quanto mais eles gritam, constrangem e humilham um trabalhador honesto, mais eles ganham dinheiro direto no bolso através das redes sociais.
Isso é uma vergonha moral e, acima de tudo, uma grave ilegalidade. Usar o cargo público e assessores pagos pelo povo para gerar lucro privado na internet através do constrangimento alheio é uma afronta à lei. É usar o dinheiro do cidadão para enriquecer o político com visualizações.
Cadê a valentia diante dos poderosos?
Mas aí vem a pergunta que incomoda: Por que essa coragem toda desaparece diante do verdadeiro poder?
- Por que esses “machões da câmera” não entram nas áreas dominadas pelo crime organizado para gravar vídeo peitando traficante?
- Por que não vão denunciar esquema pesado cara a cara?
- Por que não apontam o dedo para os grandes grupos econômicos que sugam as cidades?
- Por que não fazem vídeo pressionando os responsáveis pelo abandono da saúde, da moradia e do transporte?
Ali a voz abaixa. Ali o celular treme. Ali o herói da internet desaparece.
O reality show da dor social
Porque no fundo muitos deles não querem resolver problema nenhum. Querem apenas fabricar humilhação para ganhar curtida, seguidores, cliques e aplauso de torcida política. Transformaram a política em reality show. Transformaram a dor social em conteúdo lucrativo. Transformaram trabalhador em cenário de TikTok. E isso é revoltante.
Professor merece respeito. Servidor merece respeito. Trabalhador merece respeito.
Nenhum mandato dá licença para tratar ser humano como lixo diante das câmeras, muito menos para fazer disso um balcão de negócios.
O povo brasileiro está cansado dessa política feita por gente que nunca carregou peso na vida, nunca pegou ônibus lotado, nunca sentiu o desespero de faltar dinheiro dentro de casa, mas se comporta como dono da verdade porque ganhou seguidores na internet.
Política séria exige coragem de enfrentar os problemas reais. Exige proposta. Exige responsabilidade. Exige humanidade. Porque gritar com trabalhador na frente da câmera para lucrar nas redes sociais não é coragem. É teatro e é caso de polícia.
O povo não elegeu influenciador com complexo de autoridade. O povo elegeu representante. E representante que perde o respeito pelo trabalhador perde também o direito moral de representar o povo.
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